“A cultura corporativa é elemento fundamental para a implementação de qualquer tipo de estratégia” – Martha Gabriel, Foresight Practitioner no IFTF

Viasoft Connect – Quando você descobriu que tinha vocação para falar em público?

Martha Gabriel – Acredito que foi mais um processo de descoberta do que um momento específico de constatação. Desde os primeiros anos de escola, eu tinha facilidade (e gostava) de apresentar e expor/discutir ideias nos trabalhos de aula, e assim foi até a faculdade. Quando comecei a trabalhar, apesar de ser uma profissional de área técnica (engenharia),comecei a perceber que as minhas apresentações de projetos tinham bons resultados, e isso levava as empresas em que eu trabalhava a demandarem cada vez mais apresentações para seus clientes.

Em 1998, fiz a minha 1ª palestra no exterior (EUA) sobre tecnologias web, porque desenvolvíamos um case premiadíssimo: o Site da Turma da Mônica. Assim, comecei a palestrar regularmente no exterior e em 2003 recebi o meu primeiro prêmio de “Melhor Palestra” nos Estados Unidos. Com a publicação do meu primeiro livro em 2008 (hoje são 7, 3 nichados e 4 best sellers) e a ascensão do Youtube (2008),a minha carreira de palestrante decolou, pois trechos de entrevistas e apresentações passaram a ser acessíveis e, assim, comecei a receber cada vez mais convites para participações em eventos no Brasil e exterior.

VC – O que é ser futurista? Comumente relacionamos o termo a robótica, tecnologia, etc. O que é uma visão de futuro de forma ampla, quais aspectos contempla?

MG – Futurista é um pesquisador que usa metodologias para traçar cenários futuros – normalmente para um período de 10 anos na frente – de forma a apontar cenários possíveis, prováveis, plausíveis. Com isso, é possível se tomar melhores decisões no presente para criação dos cenários futuros desejáveis, melhores e evitando os que representem ameaças ou sejam piores. Assim, o futurista não é apenas alguém que “pensa” futuros, mas que ajuda a criar melhores futuros.

É importante observar que a disciplina de Estudos de Futuros (ou Futurismo) não é algo novo, e já existe oficialmente desde meados do século passado — o interesse sobre o assunto tem aumentado recentemente por conta da aceleração da mudança no mundo, que consequentemente, aumenta a incerteza e torna difícil a tomada de decisão.

Portanto, o Futurismo combate a mentalidade “curto-prazista” e favorece a visão de longo prazo. Uma consideração importante é que o futurista não prevê o futuro, mas traça cenários de futuros, e para tanto, utiliza inúmeros métodos, contando com a participação de perfis multidisciplinares para contemplar o máximo de aspectos e visões diversas possíveis no estudo.

VC – O que é ser mulher no cenário da inovação e no futurismo?

MG – É, ao mesmo tempo, um privilégio e um desafio.

Privilégio, porque a minha atuação pode encorajar outras mulheres a seguirem também essas áreas, que são particularmente importantes para o futuro da humanidade. Futurismo oferece visões e inovação constrói as melhores delas – os indivíduos que participam dessas áreas são aqueles que direcionam para onde vamos e decidem como chegaremos lá.

Se essas visões e decisões não tiverem participação de mulheres, não apenas estaremos criando futuros enviesados (o que é péssimo para a sustentabilidade humana) como também estaremos privando as mulheres das melhores oportunidades profissionais, relacionadas com liderança e tecnologia (que fomenta a inovação),que oferecem melhores ganhos tanto educacionais quanto financeiros.

Desafio, porque ser minoria contempla uma responsabilidade maior de atuação do que apenas como indivíduo isolado – os meus atos (especialmente se forem deslizes),muitas vezes, podem ser julgados e interpretados como percepção geral sobre as mulheres. Isso, consequentemente, demanda a busca de um nível de performance constante de excelência, o que é humanamente insustentável e pode comprometer outras dimensões da nossa vida pessoal, como saúde.

VC – Comente alguma inovação que você estudou recentemente e que chamou mais a sua atenção.

MG – Apesar das inovações relacionadas com inteligência artificial serem as estrelas do momento, pois alavancam um tsunami de outras inovações, acredito que precisamos abrir o leque de atenção para incluir também outras áreas que têm tanto ou maior potencial de transformar a humanidade quanto a inteligência artificial. Uma dessas inovações é a edição genética por meio do CRISPR, que, se por um lado, pode trazer avanços espetaculares para a vida e saúde humanas, por outro, pode também criar mutações genéticas propagáveis com potencial de causar uma catástrofe ecológica.

O cenário tecnológico, e consequentemente o de inovação, tem se tornado cada vez mais complexo, com mais tecnologias interdependentes, significando que todas as áreas se interrelacionam e se afetam mutuamente, dificultando a visualização de causa-efeito, e facilitando assim, o eventual surgimento de efeitos colaterais indesejados. Por isso, nossa visão precisa se ampliar e a nossa ação precisa ser cada vez mais responsável.

VC – Você é referência no Brasil em temas no mundo digital. Dos assuntos que você domina, qual será abordado no Viasoft Connect 2023?

MG – Vou falar sobre inovação, mais especificamente, sobre a importância da cultura corporativa para abraçar a inovação e coloca-la em ação. A cultura é elemento fundamental para a implementação de qualquer tipo de estratégia – quer seja de inovação, ou não – pois a cultura pode tanto ser um elemento catalizador, quando resistente a mudanças. Nesse sentido, a transformação cultural é o primeiro passo para a criação de uma organização com DNA inovador, e vou abordar e discutir como desenvolver e fomentar uma cultura de inovação.

VC – As redes sociais incorporam cada vez mais tecnologia. O que podemos esperar do futuro da cultura digital na gestão empresarial?

MG – No futuro, toda empresa será uma empresa de tecnologia que vende algo (pizzarias serão empresas de tecnologia que vendem pizzas, escolas serão empresas de tecnologia que vendem educação, e assim por diante). A tecnologia permeia cada vez mais aspectos de uma organização: da produção ao consumidor/cliente, tudo passa a envolver cada vez mais tecnologia. Além disso, essa tecnologia crescente contribui para um aumento de complexidade que vai além da capacidade de compreensão humana – isso significa que a mesma tecnologia que cria esse ambiente tecnológico extraordinário deve ser usada pelos humanos para solucioná-lo. Portanto, provavelmente não existirá cultura corporativa no futuro que não tenha o digital no seu DNA: pessoas, processos e produtos.